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textos elegantes

Indiquei a uma amiga a leitura de um conjunto de textos que fazem parte de uma série de outras 30 escrituras. Denominava estes de relatos. Ela enviou-me um comentário denominando os textos lidos de “elegantes”. Achei da maior propriedade. A partir de agora fica sendo TEXTOS ELEGANTES.

1. UM BOM FIM DE SEMANA
Meu sábado foi ótimo. Principalmente a parte da manhã. Estive em uma mesa com jornalistas da nova (ex-alunos) e velha geração. Em um café do Bom Fim (POA), que gosto muito e que fazia algum tempo que não freqüentava. Meu joelho está melhorando, quase bom. Foram muitos os assuntos. Mas, também, vi uma pessoa que há muito tempo não via. De relance. Mas tudo indica que ela está muito bem. De namorado novo. Certamente, deve estar feliz, pois que se viu livre, definitivamente, da história anterior e que foi péssima. Pelo que sei para ambos os lados. Juro, fiquei feliz. Gosto quando encontro pessoas próximas de bem com a vida. De um modo geral, buscamos e merecemos a felicidade. A vida é um instante. Sou muito amigo do ex dela. Acompanhei bem de perto toda a história. Ele já tinha me dito que sabia dos novos caminhos dela, dizendo que achava ótimo, pois que tinha se livrado de uma rara (se não única) história, em sua vida, que gostaria que não tivesse acontecido. Da qual tem profundo arrependimento por não ter se dado conta do que iria acontecer. Ainda segundo ele, uma espécie de mancha em seu passado afetivo e que todos os vestígios já tinham sido deletados ou jogados no lixo. Fez, sempre, questão de dizer, agora faz tempo que não o encontro, que não tem quaisquer mágoas ou ressentimentos, querendo preservar, apenas, o máximo de distância. Esta história tem estreita relação com alguns textos que publiquei no BlogPontodevista sob a forma de relatos. Da última vez que nos vimos guardei o ar de felicidade dele ao dizer que estava livre. E que,  sem ansiedade, estava pronto para uma verdadeira história de amor. Ela parece que já encontrou. Que seja feliz. Por sinal,  todo o final de semana foi bom.

2. UMA CLEPTOMANÍACA NA MINHA VIDA
Convivi por algum tempo com uma cleptomaníaca. Com esta frase começou um relato de um amigo. Sou fracamente partidário da ideia de que jornalista, antes de escrever, tem que saber escutar. Acho, que decorre daí o fato de que recebo de amigos – muitos deles apenas do mundo virtual – os mais variadas histórias. Em alguns casos solicito, imediatamente, autorização para transformar o que acabo de escutar ou ler em um pequeno texto. Pela curiosidade do fato narrado ou por algum outro motivo. Em alguns outros casos a relação ficção/realidade vai ficar tão tênue que nem solicito. Acontece, também, de ocorrer um grande espaço de tempo entre “o escutar” e o texto final. Quando tal acontece, a necessidade de autorização, também, é absolutamente desnecessária. Uma boa parte das vezes, impossível. Esta pessoa conta que durante um período de pelo menos uns dois anos conviveu com uma clepto quase que diariamente. Sem qualquer tipo de desconfiança. Ou se esforçando para não desconfiar. Levou um tempo para perceber que poderia haver uma relação não casual entre a “sua repentina perda de cuidados e atenção” com alguns de seus objetos e a “perda” dos mesmos. Ainda uma incerta possibilidade. Custou a perceber a relação de interesse da amiga por alguns destes objetos e o desparecimento dos mesmos. Até que aconteceu um episódio definitivo para sacar o comportamento da clepto, ainda segundo ele. Por absoluto acaso vai fazer uma visita ao apartamento novo desta pessoa, super bem decorado. Tudo de muito bom gosto. Começa a passar os olhos pelos móveis e por vários objetos. Mais uma vez, sem qualquer sentido de desconfiança (definitiva), se interessa por alguns livros empilhados. Qual não é a surpresa. Descobre um livro que fazia algum tempo que procurava em sua biblioteca. Colocado como objeto de decoração. Para ser visto como uma raridade, culta. Ao foliar o livro – raro e só comprado por encomenda – reconhece algumas marcações que tem o hábito de fazer quando de suas leituras. A clepto se desconcerta. E diante do fato de que ele diz não estar encontrando o seu exemplar ela, imediatamente, se dispõe a ceder o “seu exemplar”, decorativo. Para readquirir o livro foi preciso uma certa insistência, paciente e educada. Sem nenhuma afobação, embora indignado, confessa ele. Diante da devolução ficou super agradecido por ela estar lhe proporcionando ter um exemplar do livro que tinha “perdido”. Desdobrou-se em agradecimentos, ironicamente. Relatou ainda que quando o fato estava se desenvolvendo, a clepto correu para uma outra pilha de livros com o nítido intuito de impedir que outros fossem vistos. Chegou a dizer que o livro “descoberto” por ele até poderia ser dele. O que seria estranho, pois não tem, ainda segundo ele, o hábito de emprestar. E que muito menos emprestaria aquele, especificamente. Ficou a certeza de que outros livros não encontrados (ultimamente) poderiam ter sido incorporados pela clepto. Tipo descuido. Ele disse ainda que sua biblioteca é uma “bagunça” organizada, “decorada” com muitos pequenos objetos. Uma tentação para um pessoa com este distúrbio comportamental. Que livros não ficam “perdidos” por muito tempo, pois que decora a “distribuição geográfica” dos mesmos por assuntos ou autores. Foi a partir daí que ele estabeleceu a relação (definitiva) com a “perda” de outros pequenos objetos durante o período mais próximo desta pessoa. Ele ainda conta que saiu do apartamento não só com estas certeiras pulgas atrás da orelha, mas igualmente confuso e perplexo. Decidido a nunca mais permitir a entrada dessa pessoa em sua moradia. Assim como em outros textos, resultante de relatos de pessoas próximas, omiti um conjunto razoável de detalhes narrados para ficar o mais distante possível do simples factual. Das picuinhas. É preciso reafirmar, ainda, que o espaço impõem limitações. Mas não há nenhum juízo de valor ou qualquer carga de rancor, condição que o autor do relato fez questão de pedir. Espero ter conseguido. Caso contrário peço desculpas, antecipadamente. Por último ele destacou que, a estas alturas da vida, o fato não tem mais a mínima importância. É só uma história.

3. MEU UMBIGO MINHA VIDA
Meu umbigo, minha vida. Este é um texto construído a partir do relato da experiência de um amigo. Procurei ser o mais fiel possível às suas observações, todas realizadas após terminar uma relação de namoro. Relato feito algum tempo depois de passar a tempestade. Sem ressentimentos ou mágoas. Com o humor leve por estar livre. Evitei relatar histórias (fatos) que serviram de base para tais conclusões. Cada afirmativa dele era seguida ou antecedida pelo relato de um ou mais episódios. Segundo ele existem pessoas tão egocêntricas que são incapazes de perceberem algumas das oportunidades que se colocam diante delas ao longo da vida. Ou se decidem por opções marcadas por uma certa pobreza de espírito. Desperdiçam, perdem o “time” de avançarem em direção a um outro patamar de entendimento da própria vida, das relações, tanto em um sentido mais amplo como mais restrito, inclusive e principalmente no plano da afetividade. Não são capazes de um outro tipo de apreensão do mundo. O respectivo umbigo dita o ritmo e o “olhar”. Por serem o centro do universo fazem do outro um objeto pelo qual não tem nenhum respeito, tanto no plano privado como público. Adoram as manifestações públicas de poder e que de alguma forma humilhem o parceiro. São pessoas de baixíssima auto-estima; e que, por isso mesmo, elevam um pouco a sua destruindo, sistematicamente, a do outro. Pessoas infelizes que não possuem boas histórias para contar, até mesmo pelo fato de que tornam quem se aproxima, infeliz. Minha vida, meu umbigo. Não conseguem construir e viver grandes amores. São pessoas atormentadas. Constroem relações de alta carga de neura. São “feiques” ao ponto de se tornarem fascinantes, inteligentes, sociáveis e amorosas. São falsamente possessivas e até ciumentas. Principalmente quando o parceiro que, vive o mundo real, deixa por alguns segundos de mirar o umbigo, dela. Leva um tempo para que a nossa ficha caia. E, às vezes não cai e a pessoa pena uma vida inteira. Ou fica enredada em um vai-e-vem, torturante. Vivendo por tempos na esperança de que a pessoa olhe para frente. Para quem está a seu lado. São pragmáticas que, oportunisticamente, aliam este interesse “amoroso” (desrespeitoso) à solução material de suas respectivas vidas. Uma certa e falsa docilidade está intimamente associada ao grau de submissão do parceiro aos seus interesses. Aproveitam-se da fragilidade momentânea e eventual do outro. Ou optam por alguém realmente já frágil e nada resolvido, igualmente um depressivo. Se este panorama estiver então associado a um quadro, hoje, denominado de bipolar o cara está roubado. Entrou numa fria. Enquanto estiver apaixonado acha até engraçado e lúdico uma certa passionalidade. Mesmo quando desrespeitosa. Quebra a rotina. Mas tendo uma certa sacada a paixão passa bem ligeiro. E até, segundo ele, a chave de boceta perde a força. Vira uma chavinha. Este amigo que tem uma certa qualificação intelectual e profissional, uma determinada história, em nenhum momento, procurou se colocar acima desta pessoa durante todo o relato. Assinalou, por diversas vezes, que tinha jogado todas as fichas na ideia de construir uma relação duradoura e definitiva, disposto a conviver com alguns dos eventuais defeitos dela e a fazer concessões. Ele tem uma certa idade e bagagem afetiva e existencial. Ainda segundo ele foi uma importante experiência. Concluiu dizendo que saiu fortalecido para a próxima história e não nega que, redobradamente, desconfiado.

4. A INDÚSTRIA DO ESTICA
Quero envelhecer com dignidade. Acho que venho trilhando e perseguindo este caminho. Muitos homens estão, também, submetidos à ditadura que escraviza uma parcela significativa de mulheres. O poder fascista da eterna juventude. Não estou me referindo a ter ou não vaidade. Uma boa auto-estima. Sou vaidoso e construí um estilo, ao natural e sem esforço. Não faço absolutamente nada para disfarçar a minha idade. Tenho todas as condições para estar com boa saúde. Pago muito caro por isso. Mas não vou procurar estar esteticamente parecendo mais jovem. Seria de uma absoluta banalidade uma possível preocupação com meus próprios cabelos brancos. É não ter o que fazer. Não vou cortá-los mais curtos para diminuir o branco, assim como não vou ter a “respeitabilidade” de uma barba branca, mas bem curta para não parecer de mais idade. Bem ao contrário, às vezes tenho vontade de deixá-la mais longa para parecer um velho mestre. Não cortar os fios loucos que são cultivados nas orelhas. Segundo os chineses sinais da velhice e sabedoria do dragão. Para eles, os fios do dragão. Admito que é mais fácil para nós do que para elas. Mas a indústria do “eternamente jovem” tem, avassaladoramente, estendido seus poderes sobre o universo masculino. Nosso país está na ponta em cirurgias plásticas. A indústria do estica. O ambiente das academias de malhação é o da mais pura exibição do nada. Claro que preciso estar atento à perda de massa muscular. Brinco, dizendo que o único exercício que fiz ao longo da vida foi o de virar páginas de livros. A minha barriga é um problema para ser visto do ponto de vista da saúde. Penso que é natural, da natureza, que as mulheres tenham mais preocupação com a estética do que nós. Esta preocupação quando excessiva é a expressão “sofisticada” da banalidade. Da futilidade. Nada mais correto do que estar com as unhas cortadas e limpas. Mas fica fora do meu quadro de raciocínio cuidar das minhas unhas como a mesma preocupação estética e a carga de subjetividade, feminina. Gosto das minhas garras. Sinto-me um pouco homem neandertal. Da caverna. Quanto movimenta de grana a indústria do estica? As mulheres escondem que fazem uso desta indústria, mas não muito. Os homens são discretíssimos. Recententemente fiz implantes dentários. O que deixa o rosto com uma aparência mais “jovem”. Mas, fiz por um problema de qualidade de vida e não por preocupações estéticas. Recuperei o paladar. Não fico inseguro para beijar. Os meus país não contavam com este avanço. No final da vida, a minha mãe tem dificuldade para se alimentar. A prótese não segura. Ela é do tempo que se dizia “chapa”. Sou inteiramente a favor da utilização de todos os recursos que melhorem nossa qualidade de vida e que, secundariamente, nos torne mais “jovens”, sem nos tirar a beleza da velhice. Tenho preocupações, sem paranoias, com a minha alimentação. Os chineses dizem que nossa saúde começa pelo que comemos. Mas está fora de cogitação – totalmente – as dietas da modernidade na base de congelados e suplementos. Adoro cozinhar e comer bem. Diminui a carne vermelha. À noite nem pensar. Consumo muito peixe. Não sou de resto um fundamentalista em absolutamente nada. Me alimento menos como todo velho que gasta menos energia. Esta ditadura fascista da eterna juventude que escraviza as mulheres, gradativa e progressivamente, estendida aos homens é a própria despersonalização, uma dissintonia entre o que somos mentalmente (ou deveríamos ser) e o que aparentamos fisicamente. Meu velho pai, um operário metalúrgico, militante do Partidão (PCB); e, no final da vida, militante do PCdoB não pode dispor dos avanços da indústria farmacêutica. Aos 16 anos me beneficiei (da indústria química) quando minha primeira namorada, com quem casei de papel passado, fez uso dos anticoncepcionais que acabavam de chegar às farmácias. Lembro que uma vez, ele chegando do trabalho, me pegou na escadaria do prédio dando um amasso na namorada. Quando entrei em casa tomei um esporro: “se engravidar ela te boto na rua”. Passei alguns dias longe do “arreto” que me deixava com as bolas doloridas. “Ficava” só de mãozinha. Por uns poucos dias. Vivi esta revolução com minha primeira companheira. Envelheço, e agora, com dignidade, posso fazer uso de outra revolução. Em lugar de velho brocha, velho, sim….. mas de pau duro. Nos meus 66 anos. E sem nenhuma pressa!!!!

5. GRAÇAS AO BOM CAPETA!
Namoradas adoram quando deixamos à vista nossas fragilidades. Para o bem ou para o mal. Aprendi isso com a idade. Com o correr da vida. Não como um exercício oportunista, de hipocrisia ou de falsa modéstia. Descobri que criamos lanços de profundo carinho, respeito e cumplicidade, somente, quando mostramos nossas dificuldades, dúvidas e inseguranças. Quando pedimos colo. Homens bem resolvidos não se envergonham de pedir colo. O colo da amada é divino. Não significa deixar de ter uma atitude de proteção para com a elas. É claro que me refiro às namoradas que não estiveram disputando nada. Que foram parceiras. Bem resolvidas em quase todos os sentidos, mas principalmente como mulher. As do bem. Não aquelas que tiveram o prazer, compulsivo muitas vezes, de usar nossas “fraquezas” como elemento para a destruição de nossa respectiva auto-estima. Que nos colocavam para baixo. Com o tempo aprendi que a melhor forma de “conquistar”, insisto que não como exercício de manipulação, é ser verdadeiro em tudo, deixando à vista o fundo da alma. Uma obviedade. Sempre procurei agir assim. Mas, é claro que, na juventude, somos tentados, em alguns momentos, justamente pela fragilidade, a darmos uma de imbatíveis. Na “maturidade” ser “forte”, assim, significa mostrar uma puta insegurança. É verdade que algumas vezes e por circunstâncias de momento, vacilações, carências afetivas, ficamos impedidos de conseguir uma boa distância de situações neuróticas. Mas a ficha, sempre, acaba caindo, usando uma imagem mais comum. No entanto, nunca é de se arrepender por termos deixados à vista nossas respectivas fragilidades ao percebermos um erro de avaliação. A história acaba e saímos mais fortalecidos para a próxima, menos vulneráveis e mais dispostos, ainda, a termos mais autenticidade, sem recuarmos um milímetro para as forças da hipocrisia. Do fazer de conta. Trata-se de mais uma razão, bem ao contrário, para sermos redobradamente abertos e transparentes. Por, sempre, ter perseguido estas ideias, pelo menos a partir de um determinado momento, é que continuo tendo excelentes relações com todas as ex que não ficaram na superficialidade. Que não foram oportunistas. As “péssimas” histórias e foram raríssimas, tiveram curta duração. Graças ao bom capeta. Não guardo mágoas nem destas. Ninguém é responsável pela nossa eventual infelicidade. Muito menos por nossos equívocos. Nós, somos responsáveis pelas nossas escolhas. Um ideia sartreana. Disse, recentemente, em uma destas escrituras matinais que sou o que cada uma delas fez de mim. Que todos os meus casamentos deram certo. Verdades definitivas. Pela milésima vez digo que estas são escrituras construídas com palavras-estiletes. Cada uma delas e frases e ideias são resultantes de sucessivas raspagens. Bem lá do fundo da alma. Quero só transitar e dizer escrituras viscerais. Nos desculpamos, antecipadamente, pelas generalizações, pressupostos, simplificações e a carga de subjetividade, o que torna o texto cheio de limitações.

OS OUTROS 25/30 textos “elegantes” estão sendo trabalhados. Alguns só deverão “abertos”  daqui uns anos. São relatos “históricos”,  de vida. Escritos, talhados por palavras-estiletes. Viscerais. E dos quais, pelo menos de alguns deles, preciso ter uma distância bem maior do que tenho na atualidade. Distanciamento necessário para que mantenha-se a elegância.

Retratos

Vilém Flusser em foto dos anos 70. Do caderno Mais!, do jornal Folha de SP, em julho de 2007.
Norman Mailer (ao centro e olhando para baixo) participando de protesto contra a guerra do Vietnã, na década de 60. A foto é do caderno Mais!, do jornal Folha de SP, em outubro de 2007.
Escritor francês Albert Camus (1913/1960), em uma foto sem data. A foto é do caderno Mais!, do jornal Folha de SP, em setembro de 2007.