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a história de um “invisível”


O nome dele é David Custódio Duarte. É deficiente desde o nascimento. Segundo relato, reproduzindo um diagnóstico do médicos, nasceu com problemas nas terminações nervosas da coluna por deficiência alimentar da mãe. Ele é o segundo filho de uma série de nove irmãos. O único deficiente. Nunca teve os movimentos da parte inferior do corpo. Saiu recentemente de uma longa internação para se recuperar dos estragos causados pelo crack. Pergunto qual o nível de estudo. Obtenho como resposta que nenhum, mas que gosta e lê muito sobre filosofia. A seguir pergunto que obras de filosofia ele leu. Pois fiquem sabendo que David gosta muito e cita trechos de “Crítica da Razão Pura” de Kant. Leu várias vezes “Paz Perpétua”, do mesmo filósofo. Pergunto se já leu Sartre. Ele responde: “o inferno são os outros”. Segue falando de Albert Camu e de Nietsche. Não acredito no que estou escutando. Está morando em um albergue até a próxima semana. Foi adotado por uma família de classe média, mas aos dezessete anos foi para rua. Diz ainda que até a adolescência a deficiência não pesava tanto. Passou a ter noção das limitações quando, segundo ele, começou a sentir falta de uma mulher. Se interessou por filosofia para tentar compreender o sentido da vida. Teve acesso a alguns livros pelo contato com o grupo teatral Terrera da Tribo. Relatou, também, que quando decidiu abandonar a família que o tinha adotado queria se tornar um homem adulto conhecendo a rua e que não se arrepende. Digo a ele que é na “alma encantadora das ruas” que está a vida. David complementa dizendo algumas coisas sobre João do Rio. Penso que antes de saber escrever, o jornalista tem que saber escutar. ESCUTAR OS INVISÍVEIS!

uma cleptomaníaca na minha vida

Convivi por algum tempo com uma cleptomaníaca. Com esta frase começou um relato de um amigo. Sou fracamente partidário da ideia de que jornalista, antes de escrever, tem que saber escutar. Acho, que decorre daí o fato de que recebo de amigos – muitos deles apenas do mundo virtual – os mais variadas histórias. Em alguns casos solicito, imediatamente, autorização para transformar o que acabo de escutar ou ler em um pequeno texto. Pela curiosidade do fato narrado ou por algum outro motivo. Em alguns outros casos a relação ficção/realidade vai ficar tão tênue que nem solicito. Acontece, também, de ocorrer um grande espaço de tempo entre “o escutar” e o texto final. Quando tal acontece, a necessidade de autorização, também, é absolutamente desnecessária. Uma boa parte das vezes, impossível. Esta pessoa conta que durante um período de pelo menos uns dois anos conviveu com uma clepto quase que diariamente. Sem qualquer tipo de desconfiança. Ou se esforçando para não desconfiar. Levou um tempo para perceber que poderia haver uma relação não casual entre a “sua repentina perda de cuidados e atenção” com alguns de seus objetos e a “perda” dos mesmos. Ainda uma incerta possibilidade. Custou a perceber a relação de interesse da amiga por alguns destes objetos e o desparecimento dos mesmos. Até que aconteceu um episódio definitivo para sacar o comportamento da clepto, ainda segundo ele. Por absoluto acaso vai fazer uma visita ao apartamento novo desta pessoa, super bem decorado. Tudo de muito bom gosto. Começa a passar os olhos pelos móveis e por vários objetos. Mais uma vez, sem qualquer sentido de desconfiança (definitiva), se interessa por alguns livros empilhados. Qual não é a surpresa. Descobre um livro que fazia algum tempo que procurava em sua biblioteca. Colocado como objeto de decoração. Para ser visto como uma raridade, culta. Ao foliar o livro – raro e só comprado por encomenda – reconhece algumas marcações que tem o hábito de fazer quando de suas leituras. A clepto se desconcerta. E diante do fato de que ele diz não estar encontrando o seu exemplar ela, imediatamente, se dispõe a ceder o “seu exemplar”, decorativo. Para readquirir o livro foi preciso uma certa insistência, paciente e educada. Sem nenhuma afobação, embora indignado, confessa ele. Diante da devolução ficou super agradecido por ela estar lhe proporcionando ter um exemplar do livro que tinha “perdido”. Desdobrou-se em agradecimentos, ironicamente. Relatou ainda que quando o fato estava se desenvolvendo, a clepto correu para uma outra pilha de livros com o nítido intuito de impedir que outros fossem vistos. Chegou a dizer que o livro “descoberto” por ele até poderia ser dele. O que seria estranho, pois não tem, ainda segundo ele, o hábito de emprestar. E que muito menos emprestaria aquele, especificamente. Ficou a certeza de que outros livros não encontrados (ultimamente) poderiam ter sido incorporados pela clepto. Tipo descuido. Ele disse ainda que sua biblioteca é uma “bagunça” organizada, “decorada” com muitos pequenos objetos. Uma tentação para um pessoa com este distúrbio comportamental. Que livros não ficam “perdidos” por muito tempo, pois que decora a “distribuição geográfica” dos mesmos por assuntos ou autores. Foi a partir daí que ele estabeleceu a relação (definitiva) com a “perda” de outros pequenos objetos durante o período mais próximo desta pessoa. Ele ainda conta que saiu do apartamento não só com estas certeiras pulgas atrás da orelha, mas igualmente confuso e perplexo. Decidido a nunca mais permitir a entrada dessa pessoa em sua moradia. Assim como em outros textos, resultante de relatos de pessoas próximas, omiti um conjunto razoável de detalhes narrados para ficar o mais distante possível do simples factual. Das picuinhas. É preciso reafirmar, ainda, que o espaço impõem limitações. Mas não há nenhum juízo de valor ou qualquer carga de rancor, condição que o autor do relato fez questão de pedir. Espero ter conseguido. Caso contrário peço desculpas, antecipadamente. Por último ele destacou que, a estas alturas da vida, o fato não tem mais a mínima importância. É só uma história.

(agradeci pelo relato e por ter me permitido construir mais um texto em que ficção/realidade se perpassam. O título é uma sugestão do autor do relato)