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uma cleptomaníaca na minha vida

Convivi por algum tempo com uma cleptomaníaca. Com esta frase começou um relato de um amigo. Sou fracamente partidário da ideia de que jornalista, antes de escrever, tem que saber escutar. Acho, que decorre daí o fato de que recebo de amigos – muitos deles apenas do mundo virtual – os mais variadas histórias. Em alguns casos solicito, imediatamente, autorização para transformar o que acabo de escutar ou ler em um pequeno texto. Pela curiosidade do fato narrado ou por algum outro motivo. Em alguns outros casos a relação ficção/realidade vai ficar tão tênue que nem solicito. Acontece, também, de ocorrer um grande espaço de tempo entre “o escutar” e o texto final. Quando tal acontece, a necessidade de autorização, também, é absolutamente desnecessária. Uma boa parte das vezes, impossível. Esta pessoa conta que durante um período de pelo menos uns dois anos conviveu com uma clepto quase que diariamente. Sem qualquer tipo de desconfiança. Ou se esforçando para não desconfiar. Levou um tempo para perceber que poderia haver uma relação não casual entre a “sua repentina perda de cuidados e atenção” com alguns de seus objetos e a “perda” dos mesmos. Ainda uma incerta possibilidade. Custou a perceber a relação de interesse da amiga por alguns destes objetos e o desparecimento dos mesmos. Até que aconteceu um episódio definitivo para sacar o comportamento da clepto, ainda segundo ele. Por absoluto acaso vai fazer uma visita ao apartamento novo desta pessoa, super bem decorado. Tudo de muito bom gosto. Começa a passar os olhos pelos móveis e por vários objetos. Mais uma vez, sem qualquer sentido de desconfiança (definitiva), se interessa por alguns livros empilhados. Qual não é a surpresa. Descobre um livro que fazia algum tempo que procurava em sua biblioteca. Colocado como objeto de decoração. Para ser visto como uma raridade, culta. Ao foliar o livro – raro e só comprado por encomenda – reconhece algumas marcações que tem o hábito de fazer quando de suas leituras. A clepto se desconcerta. E diante do fato de que ele diz não estar encontrando o seu exemplar ela, imediatamente, se dispõe a ceder o “seu exemplar”, decorativo. Para readquirir o livro foi preciso uma certa insistência, paciente e educada. Sem nenhuma afobação, embora indignado, confessa ele. Diante da devolução ficou super agradecido por ela estar lhe proporcionando ter um exemplar do livro que tinha “perdido”. Desdobrou-se em agradecimentos, ironicamente. Relatou ainda que quando o fato estava se desenvolvendo, a clepto correu para uma outra pilha de livros com o nítido intuito de impedir que outros fossem vistos. Chegou a dizer que o livro “descoberto” por ele até poderia ser dele. O que seria estranho, pois não tem, ainda segundo ele, o hábito de emprestar. E que muito menos emprestaria aquele, especificamente. Ficou a certeza de que outros livros não encontrados (ultimamente) poderiam ter sido incorporados pela clepto. Tipo descuido. Ele disse ainda que sua biblioteca é uma “bagunça” organizada, “decorada” com muitos pequenos objetos. Uma tentação para um pessoa com este distúrbio comportamental. Que livros não ficam “perdidos” por muito tempo, pois que decora a “distribuição geográfica” dos mesmos por assuntos ou autores. Foi a partir daí que ele estabeleceu a relação (definitiva) com a “perda” de outros pequenos objetos durante o período mais próximo desta pessoa. Ele ainda conta que saiu do apartamento não só com estas certeiras pulgas atrás da orelha, mas igualmente confuso e perplexo. Decidido a nunca mais permitir a entrada dessa pessoa em sua moradia. Assim como em outros textos, resultante de relatos de pessoas próximas, omiti um conjunto razoável de detalhes narrados para ficar o mais distante possível do simples factual. Das picuinhas. É preciso reafirmar, ainda, que o espaço impõem limitações. Mas não há nenhum juízo de valor ou qualquer carga de rancor, condição que o autor do relato fez questão de pedir. Espero ter conseguido. Caso contrário peço desculpas, antecipadamente. Por último ele destacou que, a estas alturas da vida, o fato não tem mais a mínima importância. É só uma história.

(agradeci pelo relato e por ter me permitido construir mais um texto em que ficção/realidade se perpassam. O título é uma sugestão do autor do relato)

não consigo tempo para ficar deprimido

Não tenho tempo para ficar deprimido. Sempre tenho muita coisa para fazer. Não estou falando no tempo despendido com o trabalho. Sou um privilegiado. Ainda preparo minhas aulas, passados vinte e poucos anos. A população paga pelo que faço. Tenho, em sala de aula, futuros jovens jornalista. Ganho pouco por não ter feito carreira acadêmica. Não me arrependo. É muita responsabilidade. Adoro o que faço. Quando em sala de aula absoluta atenção. Digo que não tenho tempo pelo fato de que a cabeça vive, de sucessivos tumultos. O alimento é a inquietação. Imagino muitas atividades. Vivo sonhando. Gostaria, por exemplo, de viver uma temporada em Cuba. Na rua, fotografando, tomando uns tragos, escutando música e conversando com as pessoas. Conhecendo algumas cubanas. Como se estivesse em uma cidade do nosso país. Persigo, quase que compulsivamente, um envolvimento cada vez maior com o ato de escrever e fotografar. É o ar que respiro. Não sei viver longe dos livros e das câmeras. Estas duas atividades correm juntas, mas com pesos diferentes a cada momento. Escrevo, sempre, todos os dias, tentando fazer das palavras estiletes, cortantes. O estilo é este. Escrituras da alma. E, por isso mesmo, lido com muita dificuldade com as palavras. Sempre achei que quem “escreve com facilidade” não está escrevendo nada importante. Faço um pouco como Miroslav. Tenho uma cota de fotos para fazer todos os dias. Quando, eventualmente, não escrevo ou fotografo posso ter sinais de uma depressão. A reação é imediata. Todas estas atividades se alimentam, tem por pano de fundo, a alternância entre sucessivas práticas de estar com as pessoas mais comuns. Antes de escrever é preciso saber escutar. E sou cercado por muito carinho. As pessoas, em geral, gostam de mim. Sou do bem. Embora bata de frente com muita gente. Sou gauche. Nasci torto. Sou o mesmo – dos tempos de juventude – e sou um outro na maturidade, mas de um único lado. Do lado dos marginais, dos que estão à margem. Todos os dias ao acordar me pergunto qual será a transgressão dia. Sinto, assim, as pulsações da vida!