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em homenagem à Marcos Faerman (marcão)

A literatura como resistência
( texto escrito em 2004)

“Descobri que só me sinto feliz ao trabalhar intensamente em algo que gosto”. John Reed

Na atualidade resta aos jornalistas um único reduto de efetiva resistência: o livro-reportagem. Ou o romance-reportagem. Seria possível estabelecer, rigorosamente, uma distinção entre ambos, assim como entre Jornalismo e Literatura?
Em 1952, o jornalista e crítico literário Antonio Olinto, que durante muito tempo foi professor no curso de Jornalismo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) escreveu em sua coluna diária O Globo nas Letras o ensaio Jornalismo e Literatura de onde tiramos a ideia central, o ponto de partida, o verdadeiro fio condutor deste texto: “O jornalista, que tem vocação do jornal, é um escritor, no sentido exato da palavra”.
Como jornalista, exercendo a atividade de professor, sempre que posso conto algumas histórias em sala de aula. Não como um recurso didático. O jornalismo é o prazer de escrever histórias. Uma das minhas preferidas é a que, comparativamente, procuro apontar as diferenças do Jornalismo que se faz nos tempos atuais, e o que conheci nas décadas de 60/70, quando começou meu interesse pela profissão.
Tínhamos um grupo de estudantes do Julinho (Colégio Júlio de Castilhos) que, nos sábados e domingos à noite, se reunia na Praça da Alfândega, em frente à Livraria Coletânea e bem próximo da banca de jornal que existe até hoje no local, para vermos a saída dos cinemas, discutirmos os últimos livros publicados, e comprarmos as edições dominicais dos jornais do Rio e São Paulo. A leitura dos Suplementos Literários era obrigatória. Não existiam os cadernos de variedades.
Tenho bem presente na memória, o fato de que ficávamos observando os compradores das edições dominicais dos jornais do centro do País. Quando víamos uma pessoa solicitando O Globo, de alguma forma, sabíamos quais eram suas simpatias. Se logo a seguir alguém solicitava o Jornal do Brasil também sabíamos o que ela pensava. E a diferença entre elas. Teve um momento em que a leitura obrigatória era do Correio da Manhã. A edição dominical deste jornal com a íntegra do diário de Che Guevara esgotou, rapidamente. Em meio a este passa tempo discutíamos os artigos publicados pela Revista Civilização Brasileira, ou o livro A Revolução Brasileira, de Caio Prado Júnior. A Última Hora, edição do RS, já tinha desaparecido.
Quase todos os cinemas acabaram. A livraria Coletânea desapareceu. O centro da cidade mudou. Estudantes de segundo grau de hoje – na época chamados de secundaristas – possuem muito outros passatempos. As velhas confeitarias também desapareceram. E todos os jornais são iguais.
Que diferença faz pedir um ou outro? Nenhuma. São todos coloridos, com textos curtos e com muitos infográficos (acho que esta é a denominação). Até porque as faculdades de Jornalismo, criadas na década de 70 não por acaso, são todas iguais, assim como os manuais de redação. Estes, uma praga segundo velhos jornalistas.
Também não por acaso, a grande reportagem desapareceu. Este fato tem sido apontado pelos jornalistas mais antigos. José Hamilton Ribeiro, de grandes matérias na revista Realidade, por exemplo, afirma que a ideologia do Projeto Folha de São Paulo, nos anos setenta, é o primeiro momento de implantação da ideia de reduzir custos com jornalistas e com o trabalho de reportagem para colocar as máquinas num primeiro plano. Ricardo Kotscho é outro que destaca o fato de que o Jornalismo ”moderno” e “objetivo” despreza a reportagem para privilegiar as estatísticas e a pesquisa de opinião.
Para o jornalista argentino Rodolfo Walsh, assassinado pela ditadura militar do seu País em 1977, a “reportagem era a arte da reconstrução dos fatos”. Para escrever Operação Massacre, passou meses na clandestinidade, com nome falso, e assim reconstruiu a história de um grupo de pessoas da cidade de La Plata, cidade Argentina, que é fuzilado num campo de futebol, após uma tentativa de “insurreição libertadora”. Este livro é um clássico do livro-reportagem. O jornalista alemão Günter Wallraff é outro que também disfarçado, ora de emigrante turco ora de jornalista-bem-comportado, produz dois livros-reportagem em que Jornalismo e Literatura se mesclam. Segundo ele “uma obra artística, literária e dramática, uma mistura de romance e reportagem”. É assim que devem ser lidos os livros Cabeça de Turco e Fábrica de Mentiras.

Marcos Faerman e o novo jornalismo

“Todos os grandes repórteres que conheci – muitos deles pessoalmente, outros devorando suas biografias ou memórias – eram ratos de biblioteca ou caçadores de tesouros perdidos em sebos labirínticos, como alguns de Porto Alegre, que podiam lembrar trincheiras mofadas da Primeira Guerra Mundial, ou daqueles da Praça da Sé, em São Paulo – onde se podia evocar o que restara, tristemente, nos anos 70, da maravilhosa Livraria Garreaux, mais do que maltratado por derrocadas econômicas e assediado pelos malditos xilófagos – roedores – de papel, e que permitiu a Nicodemus Pessoa um antológico lead, na idade de ouro do Jornal da Tarde:” E viva o gato Clarimundo, fiel defensor dos alfarrábios.”Eu lembro não só do lead do Pessoinha, mas daquele gato gordo, que ronronava suavemente, como uma peça de Debussy, enquanto preparava as garras de desenho animado para avançar sobre algum igualmente gordo ratão que ameaçava uma velha coleção de O Cruzeiro, da Manchete Esportiva, de A Cigarra ou tantos livros inacreditáveis que os sebos abrigam”.
Marcos Faerman (1944-1999) começava assim seu texto A longa aventura da reportagem, abrindo o caminho para que um dia se escreva uma – detalhada – história do livro-reportagem, da relação indissociável entre Jornalismo e Literatura. Marcão transitava, livremente, entre a idéia de que a reportagem existe para “reconstituir, decodificar, recuperar espaços perdidos da condição humana”, e a inúmeras referências A Ilha do tesouro, de Stvenson, O lobo e o mar, de Jack London e Moby Dick, de Melville, passando, é claro por John Reed, Daniel Defoe e muitos outros. Dez dias que abalaram o mundo, primeiro grande relato da Revolução Russa conhecido pelos ocidentais, escrito por Reed, é considerado por muitos o primeiro livro-reportagem do século XX. O jornalista que, de fato, tem a profissão no sangue, é um escritor. Não podemos escapar de uma referência ao novo jornalismo, gênero de jornalismo-literário surgido na década 50/60. Como separar, em Gay Talese, Norman Mailer, Hemingway o jornalista do escritor? Claro, não poderíamos esquecer de A Sangue Frio, de Truman Capote.
Um dos melhores perfis do ex-presidente Juscelino Kubitschek e de Oscar Niemeyer foi escrito pelo romancista e jornalista norte-americano John dos Passos, no livro O Brasil Desperta, editado pela Record, em 1964. Dos Passos visitou nosso País em 1948, 56 e 62. E produziu este incrível livro-reportagem-romance. A editora (Record) pertencia ao jornalista Carlos Lacerda que, independentemente de suas posições políticas, produzia grandes livros-reportagens. Um deles é Desafio e Promessa-O Rio São Francisco.
Gay Talese, autor de vários livros-reportagens-romances, entre eles Os Honrados Mafiosos, tem uma definição do que seria o novo Jornalismo, no livro Aos olhos da Multidão que, de alguma forma indica o que seria este gênero de escrita: “O novo Jornalismo, embora possa ser lido como ficção, não é ficção. É, ou deveria ser, tão verídico, como a mais exata das reportagens, buscando embora uma verdade mais ampla que a possível através da mera compilação de fatos comprováveis, o uso de citações, a adesão ao rígido estilo mais antigo. O novo jornalismo permite, na verdade exige, uma abordagem mais imaginativa da reportagem e consente que o escritor se intrometa na narrativa se o desejar, conforme acontece com freqüência, ou que assuma o papel de observador imparcial, como fazem outros, eu inclusive. Procuro seguir discretamente o objeto de minhas reportagens, observando-o em situações reveladoras, anotando suas reações e as reações dos outros a eles. Tento absorver todo o cenário, o diálogo, a atmosfera, a tensão, o drama, o conflito e então escrevo tudo do ponto de vista de quem estou focalizando, revelando inclusive, sempre que possível, o que os indivíduos pensam nos momentos que descrevo. Esta visão interior só pode ser obtida, naturalmente, com a plena cooperação do sujeito, mas se o escritor goza da confiança daqueles que focaliza, isto se torna viável por meio de entrevistas, onde a pergunta certa é feita no momento exato. É assim possível saber e registrar o que se passa na mente das pessoas”.
Ao lembrarmos dos norte-americanos é preciso destacar o novíssimo jornalismo de Na Natureza Selvagem e No ar Rarefeito, ambos do jornalista-romancista Jon Krakauer, editados pela Companhia das Letras. O primeiro relatando a história de um jovem que abandona tudo e sai como andarilho pelos Estados Unidos e é encontrado morto numa região desértica no Alaska. O segundo um relato da tragédia do Everest, em 1996.
Nossa história do livro-reportagem
Um livro histórico sobre o tema é O jornalismo como gênero literário, de Alceu de Amoroso Lima, editora Agir, publicado em 1958. Em 1990, reeditado pela Edusp. Há muitos anos procuro por este livro nos sebos. É uma raridade.
Em 1905, o jornal Correio da Manhã publicava, pela primeira vez, um texto de Lima Barreto. Era uma reportagem sobre as escavações que a prefeitura do Rio de Janeiro realizava no Morro do Castelo, local onde acabaram sendo encontradas várias galerias. Eram reportagens romanceadas, bem próximas do gênero folhetins. Mais tarde, estes textos deram origem ao livro O Subterrâneo do Morro do Castelo. Para Carlos Heitor Cony o primeiro romance-reportagem da nossa literatura. Um ano antes, em 1904, com 23 anos de idade, João do Rio publicou na Gazeta de Notícias uma série de reportagens com o título As religiões do Rio. É complicado fechar este texto sem uma referência ao livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, inicialmente uma série de reportagens para o jornal Estado de São Paulo. Como esquecer de Graciliano Ramos com Memórias do Cárcere? E Antonio Callado, Fernando Morais e Ruy Castro?
Um amigo, que teve acesso à primeira versão deste texto, me telefonou para fazer algumas observações, sendo a principal delas a de que estava esquecendo de falar em Autópsia do Medo, Eu, Cabo Anselmo, ambos de Percival de Souza; O Castelo de âmbar, de Mino Carta; A revolta da Chibata, e O anjo da Fidelidade, ambos de José Louzeiro; Tempo de Contar, de Joel Silveira; Morcegos Negros, de Luca Figueiredo; As noites das Fogueiras, de Domingos Meirelles, o maior livro–reportagem sobre a Coluna Prestes; Memórias do Esquecimento, de Flávio Tavares, um dos textos mais bem elaborados sobre o período ditatorial pós-64.
E acrescentou: não esqueça, acho que é preciso um parágrafo sobre os latino-americanos, com uma referência maior a Veias abertas da América latina, de Eduardo Galeano e a toda extensa obra jornalística-literária de Gabriel Garcia Márquez. Por último, algumas linhas sobre o que está sendo editado agora, como por exemplo, a Coleção Primeira Página, da Nova Fronteira, coordenada pelo José Louzeiro, reunindo grandes reportagens. Tudo isso acompanhado de um alerta: tome cuidado para não ultrapassar os dez mil caracteres. Este amigo tem pouco tempo de profissão, mas já possui boa bagagem. É indicativo de que ainda há uma esperança.
Livro-reportagem e romance-reportagem se confundem. Jornalismo e Literatura são um único gênero. Este universo está aberto aos jornalistas-escritores, sendo este o verdadeiro espaço para os contadores de histórias, os essenciais decodificadores, onde é possível escrever mais do que trinta linhas, longe das estatísticas, dos manuais de redação e das pesquisas de opinião. Estamos entupidos de Jornalismo fast-food, com tantas colunas de notinhas “isentas”. Ao estudante de jornalismo, com vocação de jornal, como futuro escritor só há uma saída: ler…ler….ler… e ler. Boa literatura. Bom jornalismo. É preciso perseguir a escrita poética. Sempre.
(Propositadamente, está foi uma escrita realizada a partir de impulsos da memória, anárquica e por isso mesmo prazerosa, uma homenagem a Marcos Faerman).