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a indústria do estica

Quero envelhecer com dignidade. Acho que venho trilhando e perseguindo este caminho. Muitos homens estão, também, submetidos à ditadura que escraviza uma parcela significativa de mulheres. O poder fascista da eterna juventude. Não estou me referindo a ter ou não vaidade. Uma boa auto-estima. Sou vaidoso e construí um estilo, ao natural e sem esforço. Não faço absolutamente nada para disfarçar a minha idade. Tenho todas as condições para estar com boa saúde. Pago muito caro por isso. Mas não vou procurar estar esteticamente parecendo mais jovem. Seria de uma absoluta banalidade uma possível preocupação com meus próprios cabelos brancos. É não ter o que fazer. Não vou cortá-los mais curtos para diminuir o branco, assim como não vou ter a “respeitabilidade” de uma barba branca, mas bem curta para não parecer de mais idade. Bem ao contrário, às vezes tenho vontade de deixá-la mais longa para parecer um velho mestre. Não cortar os fios loucos que são cultivados nas orelhas. Segundo os chineses sinais da velhice e sabedoria do dragão. Para eles, os fios do dragão. Admito que é mais fácil para nós do que para elas. Mas a indústria do “eternamente jovem” tem, avassaladoramente, estendido seus poderes sobre o universo masculino. Nosso país está na ponta em cirurgias plásticas. A indústria do estica. O ambiente das academias de malhação é o da mais pura exibição do nada. Claro que preciso estar atento à perda de massa muscular. Brinco, dizendo que o único exercício que fiz ao longo da vida foi o de virar páginas de livros. A minha barriga é um problema para ser visto do ponto de vista da saúde. Penso que é natural, da natureza, que as mulheres tenham mais preocupação com a estética do que nós. Esta preocupação quando excessiva é a expressão “sofisticada” da banalidade. Da futilidade. Nada mais correto do que estar com as unhas cortadas e limpas. Mas fica fora do meu quadro de raciocínio cuidar das minhas unhas como a mesma preocupação estética e a carga de subjetividade, feminina. Gosto das minhas garras. Sinto-me um pouco homem neandertal. Da caverna. Quanto movimenta de grana a indústria do estica? As mulheres escondem que fazem uso desta indústria, mas não muito. Os homens são discretíssimos. Recententemente fiz implantes dentários. O que deixa o rosto com uma aparência mais “jovem”. Mas, fiz por um problema de qualidade de vida e não por preocupações estéticas. Recuperei o paladar. Não fico inseguro para beijar. Os meus país não contavam com este avanço. No final da vida, a minha mãe tem dificuldade para se alimentar. A prótese não segura. Ela é do tempo que se dizia “chapa”. Sou inteiramente a favor da utilização de todos os recursos que melhorem nossa qualidade de vida e que, secundariamente, nos torne mais “jovens”, sem nos tirar a beleza da velhice. Tenho preocupações, sem paranoias, com a minha alimentação. Os chineses dizem que nossa saúde começa pelo que comemos. Mas está fora de cogitação – totalmente – as dietas da modernidade na base de congelados e suplementos. Adoro cozinhar e comer bem. Diminui a carne vermelha. À noite nem pensar. Consumo muito peixe. Não sou de resto um fundamentalista em absolutamente nada. Me alimento menos como todo velho que gasta menos energia. Esta ditadura fascista da eterna juventude que escraviza as mulheres, gradativa e progressivamente, estendida aos homens é a própria despersonalização, uma dissintonia entre o que somos mentalmente (ou deveríamos ser) e o que aparentamos fisicamente. Meu velho pai, um operário metalúrgico, militante do Partidão (PCB); e, no final da vida, militante do PCdoB não pode dispor dos avanços da indústria farmacêutica. Aos 16 anos me beneficiei (da indústria química) quando minha primeira namorada, com quem casei de papel passado, fez uso dos anticoncepcionais que acabavam de chegar às farmácias. Lembro que uma vez, ele chegando do trabalho, me pegou na escadaria do prédio dando um amasso na namorada. Quando entrei em casa tomei um esporro: “se engravidar ela te boto na rua”. Passei alguns dias longe do “arreto” que me deixava com as bolas doloridas. “Ficava” só de mãozinha. Por uns poucos dias. Vivi esta revolução com minha primeira companheira. Envelheço, e agora, com dignidade, posso fazer uso de outra revolução. Em lugar de velho brocha, velho, sim….. mas de pau duro. Nos meus 66 anos. E sem nenhuma pressa!!!!

(Mais uma vez assinalo que esta é uma escritura da alma, visceral, palavras-estiletes. Também, mais uma vez, peço desculpas pelas generalizações que possam dar o tom de dono da verdade. Respeito, rigorosamente, as escolhas diversas.)